30.4.05

Paixão primeira...

A minha primeira vez foi meio traumática. Estava chovendo, um friozinho incômodo e eu não sabia ao certo se estava afim. Era um medo não-sei-do-quê misturado com ansiedade e curiosidade.

Mas fui. Tinha 18 anos e era véspera de vestibular. Morava em PA city e tinha vindo pra Sampa justamente pra prestar fuvest.

Quando eu cheguei lá a minha sensação foi indescritível. Só passando por este momento de paixão pra saber. Milhares deles, todos iguais, invadindo um só lugar. Todos felizes, eufóricos, incentivando a vitória.

Nas outras vezes já estava mais acostumada e já fazia muito gosto. Me transformava, toda a caráter para fazer parte do estonteante espetáculo. Podia fazer sol, chuva e lá estava eu.

Enfim... passado todos esses anos, tantas histórias, gols, beijos, abraços, rituais... Declaro-me viciada e totalmente apaixonada.

E como diz a canção mais adorada pela fiel torcida: “CORINTHIANS..., CORINTHIANS minha vida, minha história, meu amor...”

Mano velho

“Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda eu sei... pra você correr macio”

Uma canja de um versinho da mineirinha Fernanda Takai, do Pato Fu, que eu tanto gosto. É bem para retratar o momento de hoje. O tempo que está trôpego, caminhando aos trancos e barrancos, se ajeitando às novas configurações. Mas é só ter um pouco de paciência que ele vai correr macio depois de tanto tempo.

“... vai vai vai vai vai... tempo amigo, seja legal, conto contigo, pela madrugada, só me derrube no final".

28.4.05

Casamento

Dizem as más línguas da história da minha família que meu pai só se casou com a minha mãe porque não podia se casar com o meu tio Celso. Se é força de expressão ou não, o fato é que os dois tiveram uma bonita e forte amizade durante anos a fio.

Meu pai, mineiro de Brazópolis, veio pra São Paulo no início da década de 60. Morou no Brás por um tempo, se apaixonou pelo Timão e era frequentador assíduo dos jogos da rua Javari.

Meu tio Celso, mineiro de Belo Horizonte, também veio pra São Paulo na década de 60, porém um pouco mais tarde. Ele chegou a morar em vários lugares – Pinheiros, Itaim Bibi - antes de chegar à várzea de baixo, onde os dois se conheceram.

A tal chamada “várzea de baixo”, que hoje, acreditem, é a Chácara Santo Antônio, era conhecida assim por causa dos seus vastos verdes infindáveis, o longo córrego que cortava o mato alto e a ausência da urbanização no local. E, por ser um lugar longínquo do centro e inabitável, era o negócio da China paras as famílias que buscavam o sonho da casa própria. E foi assim que a família do meu pai se mudou do Brás para Santo Amaro. E a família da minha mãe também.
Meu pai e o tio Celso fizeram amizade logo que chegaram e viveram muitos momentos da juventude juntos. E de tanto meu pai chamar meu tio Celso, a minha mãe acabou se apaixonando pelo magrinho de gorro, que tinha uns olhos de vidro, que deixava as meninas fascinadas.

Tempo vai, tempo vem... meu pai e minha mãe se casaram e tiveram nós quatro (o Romeu, eu, o Breno e o Diogo). Depois que o meu pai se casou com a minha mãe, o tio Celso logo se apressou e tratou de arranjar uma esposa e uma família. E se apaixonou por uma menina linda, loira, mais alta que ele, de apenas 16 anos. Tiveram que se casar às pressas, porque o amor foi tão rápido, que ela já estava com a barriga grande e bem redondinha. E foi assim que o tio Celso começou a escrever sua história de família. O tio Celso teve 4 filhos (o Chico, a Ângela, o Rafa e a Juliana). Dois com a Fátima e mais dois com a Nice, sua segunda esposa. E o que ele mais gostava de dizer aos quatro cantos era como os filhos deles eram grandes, bonitos e inteligentes. Principalmente o Chico, o mais velho. O orgulho do pai babão.

O meu tio Celso foi um cara muito bacana. Posso enumerar uma série de qualidades, tanto quanto defeitos. Mas em suma, era um amigo para todas as horas, (principalmente quando mudávamos de casa); consertador de tudo quanto é coisa e consertava tanto, que logo depois tinha que arrumar de novo (nunca entendi porque as vizinhas lá da rua adoravam quando ele ia consertar as máquinas de lavar); era animadíssimo, falante e adorava uma bebidinha (gostava tanto tanto, até cair); levava meu pai às feiras de carro para barganhar os carros velhos da garagem (e assim poder trocar por outros carros velhos); tive que decorar que o meu tio era “pau de amassa doido” para quando tivesse namorados eles me ‘respeitassem’; fazia competição com o meu pai para ver quem conseguia comer mais salada (vê se pode); adorava minha mãe e sempre a levou para brincar de carrinho de rolemã nas ruas de BH, por mais que fosse coisas de menino.

Uma determinada vez, das tradicionais enchentes da nossa cidade, principalmente lá para as bandas da estrada de Itapecerica, a casa da minha vó se encheu d’água. Meu tio Celso morava lá na época e salvou todos os presentes do naufrágio, como um herói. Depois ele ficou morando lá em casa por uns tempos e trouxe um amigo cantor, um sabiá tímido que ele cultivava dentro de uma gaiola. Adorava a companhia daqueles dois. Meu pai gritava menos quando ele estava lá e a casa ficava mais alegre com suas palhaçadas.

O tio Celso escreveu sua história, foi feliz, fez amor, fez filhos, fez amigos, fez a gente morrer de rir e fez a gente ter muita saudades desde o dia em que ele foi embora. Fico só imaginando se ele tivesse aqui ainda pra dar uns conselhos pro meu teimoso pai. Pra amparar minha mãe em alguns momentos de desespero. E pra estar presente no nosso cotidiano, pra intimidar meus namorados (rs), pra ver seus filhos lindos crescerem e casarem-se, pois é...

A finalidade deste post é justamente porque meu querido primo Chico vai se casar na próxima sexta-feira. E tenho certeza que o meu tio Celso ia ser o cara mais metido e orgulhoso deste mundo ao ver seu filho casar, com manda o figurino. Ao ver seu filho começando o início de uma história de família com a jovem Andréia

Tio Celso, querido, dedicação total a você este post cheio de história, saudades e sentimentos.

25.4.05

Hum...

Havia dois homens: um de cabelos loiros e outro de cabelos castanhos. Um me levou ao sofrimento, despejou palavras e me rejeitou. O outro me amou loucamente, me distibuiu carinhos, me fez mulher, fez-me sentir muito prazer, meu corpo ardia em febre, como há muito tempo não sentia. E eu queria mais, sempre mais.

E de repente, no ápice do momento, acordo e constato que tudo não passou de um sonho. E fiquei todo dia a matutar o que ele significou, o sonho... Afinal, loiro ou castanho? Hum...

24.4.05

Os Meninos Morenos

Hoje pela manhã acabei de ler um dos últimos livros do Ziraldo: "Os Meninos Morenos". Ele conta algumas passagens da sua infância em Caratinga, Minas Gerais numa prosa bem colorida e cheia de causos e versos. O livro é ricamente ilustrado e nos faz ter orgulho de sermos todos misturados, morenos, meio índios, meio brancos. De ao invés de neve, termos muito sol. E que o interior do Brasil é recheado de histórias fascinantes. Ziraldo brinca com o mapa do mundo, colocando a América do Sul, bem no centro. Ele chama de "projeção morenocêntrica do planisfério". Afinal, a Terra é uma bola e quem disse que precisamos adotar este mapa que coloca o Brasil num cantinho? Numa litetarura que faz a gente recordar das passagens de Guimarães em Minas, ele diverte e emociona. Brinca e fala coisas sérias disfarçadas de histórias.

"(...) O pobre do menininho recebeu a mamona atirada com força, nunca soubemos por quem, bem no meio do olho. Na hora, niguém imaginou que pudesse ser coisa grave.Quando decidiu-se que ele precisava de socorro, era tarde. AS guerras são masi cruéis do que se pode imaginar, mesmo as de brinquedo. Além de perder uma vista, o meu amigo de infância passou pela vida com o apelido de Zé Mamona".

Em 2002 tive o prazer de entrevistá-lo para o programa "Hora do Recreio". E fiquei com vontade escutar depois de tanto tempo. Aproveitei e anotei algumas pérolas, que só ele, versátil e totalmente menino maluquinho, consegue expressar.

"A escola tem que entender que livro precisa ser associado a prazer e não a pressão".

"Na minha infância a rua era um lugar de se brincar e não de se ter medo".

"A criança é o pai do ser humano. Ou seja, você é a criança que marcou a sua vida. Então se a criança for feliz hoje, não tem que se preocupar com o futuro. Porque a vida é feita de muitos hojes. Todo dia que nascer vai ser hoje pra você"

"Estudar é importante. Mas ler é mais importante que estudar".

Vou encerrar com um dos lindos verso do guatemalteco Humberto Ak'abal, do livro Meninos Morenos.

Na poça,
haviamuitas estrelas;
pedi a meu pai
que as tirasse dali.

Ele removeu a água
gota a gota
e pôs as estrelas
nas minhas mãos.

Ao amanhecer
eu queria saber se era verdade
que ele as havia tirado da poça.

E era verdade, na poça
só restava o céu.

22.4.05

Bicicleta

Quem nunca levou um tombo de bicicleta quando criança? Eu já. E muitos! A queda era superada rapidamente e lá estava eu montada na minha poderosa de novo, sempre persistente. Os roxos da minha perna denunciavam o meu desequilíbrio. Mas nada que umas boas pedaladas não curassem e o trauma da queda caía no esquecimento num minutinho. E assim a minha infância se desenrolava. Entre um tombo e outro, as quedas sucedidas dos infinitos recomeços. Confesso que às vezes tímidos, porém, ao longo do caminho, o entusiasmo crescia dentro de mim. E o prazer era imenso.

Quando somos adultos parecemos que esquecemos todos os ensinamentos sábios da infância. A gente chora, questiona, quer andar pra trás pra descobrir o que aconteceu, mas demoramos pra enxergar que é preciso continuar e com a mesma alegria de antes. Porque o machucado dói mais que outrora, a gente não consegue esquecer assim fácil. Ficamos rancorosos, difíceis de esquecer e de perdoar. A gente se tranca para o recomeço e se afunda na queda.

Há aqueles que dão risadas da nossa situação estatelados no chão. Há aqueles que sentem dó e nada fazem. Há ainda outros que dizem:

- Eu te avisei que ia cair. Andou depressa demais. Da próxima vez, tome mais
cuidado. Não acredite em tudo que ouve e que vê.

Eis que surgem os amigos que nos estendem as mãos para nos tirar do chão. Eles
são figurinhas essenciais para a retomada da nossa coragem e de encarar o desafio da pedalada novamente.

Hoje, aos meus 24 anos, faço uma viagem no tempo e vejo que já tomei alguns tombos na vida. Recentemente levei um super tombo que me deixou um roxo enorme no meu peito. Eu sei que ele vai sumir um dia e que pode demorar um pouco. Mas quero pensar no recomeço, na retomada da pedalada, como fazia na infância com a minha bicicleta. Levantar, sacudir a poeira, deixar a ferida cicatrizar com o tempo, continuar pedalando e escolhendo os caminhos por quais quero passear. Feliz e com olhos curiosos (de criança). E entre uma curva e outra, se equilibrando no ar, como um colibri, sorrir e encarar o que vem pela frente. E se cair, posso até chorar, mas eu levanto e começo tudo outra vez. Pois o mais importante é a gente querer recomeçar e andar novamente de bicicleta. Desistir nunca! Os novos caminhos nos levam a inúmeras descobertas. E as cicatrizes nos trazem ensinamentos fundamentais para nosso mundo de pedaladas infinitas.

Beijos a todos os meus sinceros amigos que me ajudam nessas pedaladas da vida.


***Este post foi inspiradíssimo na canção “Bicicleta”, do disco Pé com pé da Palavra Cantada. O sábio compositor Luiz Tatit concebeu a letra para a belíssima melodia de Sandra Peres. Esta música foi dedicada ao Nicolas Mattar, filho de Renata Mattar. O Nic pedalou até onde ele pôde nos seus três meses de vida. Porém após muitos obstáculos ele não mais teve forças de pedalar entre nós. Hoje ele pedala entre as estrelas, com sua bicicletinha de aro azulado que se confunde com o céu. ***

21.4.05

Batismo

E como post de batismo deste blog, começo citando as caraminholas de Clarice. Ah! Sábia Clarice!


"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca".

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."

"Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento."